Entre o tempo e o desejo: um romance sobre escolhas que não pedem autorização
Por Cibele Laurentino
Há histórias de amor que nascem no terreno da urgência. Outras, mais raras, germinam no tempo da consciência. O romance de José Luiz Brito pertence a esta segunda categoria: uma narrativa que investiga o afeto quando ele surge fora das expectativas sociais, exigindo não impulso, mas responsabilidade, não fuga, mas posicionamento.
No centro da obra está Viviane Cordeiro, mulher madura que se recusa a ocupar o lugar socialmente reservado à contenção do desejo. Sua trajetória não é marcada por rupturas espetaculares, mas por um processo silencioso de reconstrução. Viviane é apresentada como alguém que aprendeu a habitar a própria história com dignidade — e é justamente dessa maturidade que nasce a possibilidade de um novo amor.
O encontro com José Henrique, homem mais jovem e amigo de sua sobrinha Clarisse, desloca o romance para um campo ético complexo. A relação não é tratada como transgressão gratuita, tampouco romantizada de forma ingênua. Ao contrário: o autor constrói um enredo atento às consequências emocionais e sociais desse vínculo, explorando os limites entre desejo, lealdade, silêncio e coragem.
A escrita aposta na sutileza. O amor entre Viviane e José Henrique se desenvolve lentamente, sustentado por gestos contidos, diálogos carregados de não ditos e um respeito quase doloroso pelas circunstâncias. É um romance que compreende que a intensidade não está no excesso, mas naquilo que se escolhe preservar — e no que se decide enfrentar.
A estrutura narrativa em três vozes Viviane, José Henrique e Clarisse amplia o alcance da obra. Ao fragmentar o ponto de vista, José Luiz Brito permite que o leitor acompanhe não apenas os fatos, mas os impactos subjetivos de cada decisão. A mesma história se reconfigura a partir de sensibilidades distintas, revelando contradições, fragilidades e conflitos morais que não admitem respostas fáceis.
Clarisse assume, nesse contexto, um papel decisivo. Sua perspectiva funciona como elo entre o íntimo e o social, lembrando que nenhuma escolha afetiva acontece no vazio. Ela encarna o desconforto, a quebra de expectativas e a necessidade de reelaborar vínculos elementos que impedem que o romance se feche em uma lógica individualista.
Ao evitar o melodrama, a obra conquista força literária. Não há vitimizações nem heroísmos artificiais. O que se oferece ao leitor é uma reflexão sensível sobre o direito ao amor em todas as fases da vida, especialmente quando esse direito confronta normas tácitas e convenções arraigadas.
Mais do que narrar um relacionamento improvável, o romance afirma uma ideia potente: a maturidade não é o fim do desejo, mas a possibilidade de vivê-lo com inteireza. Trata-se de um livro sobre coragem emocional, sobre assumir escolhas e sobre a beleza silenciosa de quem decide não abdicar de si.
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Sobre o autor:
José Luiz Brito é carioca, casado com Lídia Maria e pai de Carolina e Moisés. Aposentado, vive uma transição criativa que define como metamorfose: de contador dedicado aos números a contador de histórias dedicado às palavras. A fotografia, paixão antiga, contribuiu para a criação dos cenários de seu primeiro romance. Radicado em Ribeirão Preto, onde observa diariamente uma extensa área verde de sua varanda, encontrou nesse novo espaço o impulso inicial para dar forma literária à sua estreia na ficção.
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